Retrato de Goiana em 1915

Por Josemir Camilo  

Os dados, aqui, coletados são provenientes do Almanak Laemmert administrativo mercantil e industrial - 1891 a 1940. O encontro desse texto se deu na procura de dados sobre o Intendente (prefeito) municipal João Gonçalves de Azevedo; são três páginas em três colunas na secção Estado de Pernambuco (de A a Z).

Começa com ligeira descrição do município, Comarca em 1833, tendo por juiz, seu filho Nunes Machado; à época, o termo de Goiana incluía as freguesias de N. S.do Rosário (a sede), S. Lourenço de Tejucopapo e N. s. do Ó. Cita os rios formadores do Goiana e dá a população de 45.000 habitantes e 1.500 eleitores. Passa, em seguida, a descrever geograficamente a cidade, dizendo que é a mais importante fora a capital, e com uma população de 20.000 habitantes; que dista 35 km do litoral, 66 km do Recife, 33 km de Itambé, 38 km de Nazaré e 74 km da capital da Paraíba. Em seguida, cita os edifícios mais importantes, como o da Maçonaria e o palacete onde funcionavam o Conselho Municipal (Câmara, hoje), Prefeitura (sic), Fórum e cadeia. Sobre o comércio, diz que era feito diariamente com a capital por via fluvial, mas também por terra, por meio de automóveis, diariamente, já que tinha uma das melhores estradas de rodagem do estado.

Esta duas partes acima são as únicas escritas em forma declarativa; o restante das páginas são informações de todos os tipos sobre o município, arrolando instituições e personalidades de todos os níveis. Como o município era grande, indo de Pontas de Pedra a Nossa Senhora do Ó (hoje, terras de Aliança), tudo parece bem aumentado, como dizer que Goiana (o Termo municipal) tinha sete bandas de música, quando, na verdade, só duas havia no perímetro urbano e uma na usina Goyanna (Maravilhas, posteriormente). Além destas, são arroladas as Associações de Artistas Mechanicos e Liberaes, uma outra denominada Coração Livre Popular, a Loja Maçônica, o Gabinete de Leitura, o Grêmio Diversivo (sic), o Monte Socorro e o Syndicato Agrícola. Circulava, naquele ano, o jornal A Cidade Goyanna.

Descreve os cargos políticos; Prefeito (sic): Dr. João Gonçalves de Azevedo; vice: Major Francisco Vellozo de A. Melo. Eram Conselheiros (vereadores): Coronel Daniel Barbosa de Albuquerque, Major João Antônio Gomes, Capitão José Egydio de Souza Lobo, Coronel José Henrique C. de Albuquerque, Capitão Joaquim Nunes Mendes Ribeiro, Dr. Manoel Corrêa Pessoa de Mello, Dr. Methodio R. Albuquerque Maranhão, Coronel Seraphim Luiz Pessoa de Mello e Dr. Theofilo Frederico (sobrenome rasurado na impressão, ou na cópia impressa).

A composição de órgãos e seus respectivos cargos segue, com o cemitério, a administração do canal e o mercado público; passa, em seguida, para a parte judiciária, em que aponta como juiz municipal Dr. Félix Cavalcanti da Cunha Rego: juiz de Direito, D. Victoriano Regueira Pinto de Souza, e Promotor: Dr. José Pacheco Abrantes Pinheiro. Além destas autoridades judiciárias, cita 'juízes de distrito' e como Goiana tinha cinco distritos, contando-se, aqui, com a sede, em que era juiz de distrito o capitão João da Costa Ribeiro Couto; os demais distritos tinham seu juízes: o de N. S. do Ó era um Rabelo, Orestes Pereira Rabello; de Goianinha, era Auxêncio Albino da Cunha; de Tejucopapo era Francisco Bezerra de Menezes; e o de Ponta de Pedras, Ludovico de Souza Pacheco.

Vale notar que o escrivão do distrito sede era o senhor Alberto Tavares da Cunha Mello, homem dado, também, às letras. Como poeta, deixou-nos reflexos através de sua família, pois nos deu o filho poeta-trovador, Benedito Cunha Melo, e o neto, o grande poeta nascido em Jaboatão, de nome igual ao do avô, mais conhecido como Alberto da Cunha Melo (da geração 1965, no Recife). Há, ainda, que registrar entre as autoridades, gente com dupla função, como o vice intendente (vice prefeito), o major Francisco Velloso de A. Mello, que também ocupava o cargo de delegado.

O almanaque passa a denominar quem-é-quem, na instrução pública, começando com um professor estadual, Severino Marques de Souza e uma professora, também, estadual, Maria Digna Nunes Vianna, ambos na cidade. Dentre os 18 do magistério municipal, o registro do almanaque começa também com nome masculino, apesar de haver 16 professoras. Começa a lista com o professor aposentado, Antônio Gomes de Albuquerque (figura de destaque no mundo dos jornais que vão proliferar em Goiana, na primeira metade do século XX). Por questão de espaço, das professoras distritais, registro Isaura d´Albuquerque Gadelha, em Ponta de Pedras. Na cidade, lecionavam Euferina de Oliveira Barbosa, Maria Clotilde Medeiros, Maria dos Santos Ribeiro, Mariana Lins d´Albuquerque, Nympha Nunes Lins da Silva, Paulina Augusta Pereira da Costa, Symphronio Olympio Theodoro de Albuquerque ('jubilado'). Havia duas escolas particulares: Collegio N. S. do Rosário (mas não diz o(a) dono(a), e o Curso Primário de Dona Ismênia Genuina Dias; além destas, havia a Escola Rural de Goyana, com o professor Domingos Giovanetti.

Em seguida, vinham os nomes dos tributos: coletor federal, coronel José da costa Rego Monteiro; estadual, major José Nunes Lins da Silva; municipal, capitão José Pereira de Souza Lima.

No item religião, onde pontificava o vigário Antônio Cyriaco de Vasconcelos Lemos e Silva, surge uma lista de três conventos para o município: o do Carmo, o da Soledade e o de N. S. do Pilar (sic!). As igrejas são as mesmas de hoje, já não existindo a dos Martírios. Também chama a atenção o número de igrejas/capelas da Freguesia de São Lourenço de Tejucopapo: oito, incluindo a de Catuama, a de Nossa Senhora do Terço e Santo Antônio. Já na Freguesia de Nossa Senhora do Ó, havia cinco igrejas, contando com a da Lapa. Como se pedia a um informativo positivista, à época, o periódico cita que a cidade tinha "dois templos protestantes".

Deixando o mundo espiritual, o Almanak passa a indiciar o comércio, por ramos, onde alguns nomes tradicionais se destacam, como Armínio Octaviano Nunes Machado (açúcar) e a firma Carneiro e Cia., dona da Usina João Alfredo (posterior N. S. das Maravilhas). No algodão, como comparadores, a Fábrica de Fiação e Tecidos, além do comerciante Guilherme Figueira de Mendonça. Há destaque para um item inovador, carros de aluguel, em que a Viúva Aranha compete com o cidadão Argemiro Barbosa dos Santos. Além desse registro, há o da Companhia de Transporte de Automóveis, cuja 'estação' ficava na rua do Amparo (mas não diz o nome do proprietário). Até casa mortuária entra na lista. Entra farmácia e, entre estas, a centenária Farmácia Crespo (de 1808), de Alfredo Eugênio Crespo e mais duas. No ramo de fazendas, destacam-se nomes como os de Ângelo Jordão de Vasconcellos, Guedes Alcoforado (em Ponta de Pedras), Cordeiro de Albuquerque e um Malheiros, em Goianinha; um Rabello, na Lapa. Registra-se a existência do Hotel Papagaio, de Francisco Xavier de Souza, ali na esquina da rua Direita, com a (atual) Cordeiro de Farias.

Há um setor (de há muito tempo desativado, em Goiana) o de navegação, que comportava quase uma dúzia de nomes que viviam deste ramo, entre eles, dois grandes, de fora: Carneiro e Cia., e Companhia Industrial de Pernambucana; do município, entre nove concorrentes no negócio de transporte fluvial e marítimo encontram-se dois nomes ligados a Ponta de Pedras: Guedes Alcoforado e Viúva Gadelha, além de um nome ligado à própria firma dona da Fábrica de Fiação, Manoel Aurélio F. de Gouvêa.

Ainda no setor do comércio, o ramo de maior expansão era o de secos e molhados, com cerca de 50 empreendimentos, sendo 21 deles, na cidade e os demais nos distritos. Destacam-se famílias, na cidade, como Raposo, Gemir, Carlos Mendonça, Costa, Cordeiro; dos distritos, os Barbalhos, os Amaral, Botelho, Rabello, e Manoel Rodrigues do Nascimento (genitor do nosso professor Mário Rodrigues).

O setor comercial só perde, em número de firmas, para o setor industrial do açúcar, que inclui seis empresas de destilação de álcool (incluindo a Usina Goyana) e cerca de 80 engenhos, já que toda área a oeste da sede se alongava até onde hoje se situa parte do município de Aliança. As famílias proprietárias são, por ordem de quantidade de engenhos: Rabello (e Cunha Rabelo) 12; Albuquerque (e Cavalcanti)11; Pereira (de) Lyra, 7; Correia de Oliveira, 5; Cavalcanti (e Albuquerque), 5; Maranhão, 4; e Pessoa de Mello, 3. Se juntarmos os Cavalcanti/Albuquerque, dão 16 engenhos.

Além de propriedades de engenhos, alguns investiam também no comércio de peças, como turbinas para açúcar, onde se registram Aurélio, Irmão e Cia., José Henrique César de Albuquerque e José Maranhão. A Fábrica de Fiação tinha por diretores o tenente-coronel, João Barbosa Cordeiro, Dr. Manoel Antônio Pereira Borba e o coronel Manoel Aurélio Tavares Gouveia. Estavam em ope3ração as duas usinas, a Companhia Industrial Pernambucana, com a Goyanna (Maravilhas), produzindo 50 mil toneladas, e a Santa Tereza, com 40 mil.

No universo do trabalho urbano, o Almanak elenca, junto por ordem alfabética, tantos as poucas profissões liberais, como advogados, e médicos, como as profissões derivadas dos antigos ofícios como alfaiates, barbeiros (que registra como cabeleireiros) ferreiros, marchantes, pedreiros e outros. Só havia quatro advogados, com banca, na cidade: Abrantes Pinheiro, Eduardo Corrêa, Manoel Pereira Borba e Nilo Caheté. Os médicos eram Bellarmino e Ludovico Correia de Oliveira, sendo Ludovico, também senhor de engenho.

Eis uma Goiana que se debatia, politicamente, entre a manutenção do poder entre os senhores de engenho e uma incipiente industrialização, cujos embates vão se refletir na ascensão do industrial Manoel Borba e na proliferação de jornais e seus combates históricos, ainda inéditos na historiografia.